Durante o Seminário “Justiça Restaurativa na Educação e na Ambiência Institucional”, realizado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) nos dias 13 e 14 de novembro, a presidente do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (Nugjur) e anfitriã do evento, desembargadora Clarice Claudino da Silva, conduziu o painel “Justiça Restaurativa e Ambiência Institucional: restaurando relações no ambiente de trabalho”.
Em uma fala marcada pela proximidade com o cotidiano das unidades judiciais, a magistrada reforçou a importância de construir ambientes de trabalho mais saudáveis, colaborativos e humanizados. Ao abordar a ambiência institucional, a desembargadora destacou que cada setor do Tribunal carrega uma “energia própria”, resultado direto da qualidade das relações entre servidores, gestores e magistrados.
Segundo ela, ambientes pesados costumam refletir conflitos não resolvidos, conversas interrompidas, silêncios acumulados e competições internas que, com o tempo, fragilizam vínculos e impactam o bem-estar das equipes. A desembargadora enfatizou que o cuidado, a presença genuína e o diálogo franco são fundamentos da Justiça Restaurativa e devem orientar o cotidiano das unidades. “O adoecimento da equipe é um sinal de alerta. Relações rompidas não se consertam sozinhas, precisam ser trazidas à consciência, cuidadas e restauradas”, afirmou.
Ela também ressaltou a necessidade de cada servidor reconhecer sua própria responsabilidade no ambiente em que trabalha. “A Justiça Restaurativa nos convida a trocar a lente. Antes de cobrar que o outro mude, é preciso identificar o que eu posso transformar em mim.” Clarice lembrou ainda que a Justiça Restaurativa não é apenas um método, mas uma filosofia de vida, fundada em verbos como perceber, cuidar e restaurar, e que a prática dos círculos de construção de paz permite conhecer verdadeiramente as histórias dos colegas, quebrar muros invisíveis e fortalecer vínculos que sustentam um clima institucional mais leve e cooperativo.
O sucesso do programa Servidores da Paz e a presença de facilitadores formados em todas as comarcas foram destacados como pilares que têm impulsionado melhorias nas relações de trabalho e nos indicadores do Tribunal.
No momento aberto ao público, a servidora e facilitadora de Círculos de Paz, Jéssyka Lindaura Crisóstomo Sodré, da Comarca de Várzea Grande, abriu a rodada de perguntas compartilhando as dificuldades de consolidar uma cultura de sigilo e confiança em sua comarca. Ela descreveu situações em que vivências compartilhadas em círculos acabaram repercutindo em conversas informais, gerando resistência de servidores inseguros em participar de novos encontros. Em resposta, a desembargadora enfatizou que a resistência humana ao novo é natural, uma forma de defesa diante do desconhecido. Relembrou a metáfora da “caverna de Platão” para ilustrar que alguns preferem permanecer no desconforto conhecido a enfrentar a mudança. Reforçou que o círculo deve ser sempre um ambiente protegido e que o descumprimento do sigilo não é motivo para desânimo dos facilitadores. Pelo contrário, a postura consistente e ética de quem conduz o processo é capaz de contagiar outras pessoas e restabelecer a confiança.
Na sequência, a juíza Paula Saide Biagi Messen Mussi Casagrande, coordenadora do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) de Sorriso, trouxe outra dimensão do processo de expansão dos Círculos: a resistência dos servidores em aderir à metodologia, mesmo quando convidados e orientados sobre os benefícios. A desembargadora explicou que esse obstáculo é comum em diferentes comarcas e ressaltou a importância do apoio dos juízes diretores de foro para liberar servidores e garantir condições favoráveis à participação. Apresentou também uma estratégia que tem gerado bons resultados, que é a realização de círculos com temas mais leves e coletivos, evitando, inicialmente, assuntos íntimos que possam gerar algum tipo de receio. E acrescentou, como sugestão, a criação de um calendário fixo de círculos, com temáticas atrativas, que permitam uma construção gradual e organizada das práticas restaurativas no ambiente.
A provocação seguinte foi feita pela Instrutora em Justiça Restaurativa e Estrategista em Inteligência Relacional, Katiane Boschetti da Silveira, que abordou a relação entre liderança, ambiência de trabalho e gestão do tempo. Ela destacou que lideranças restaurativas são responsáveis por grande parte do engajamento das equipes, mas enfrentam o desafio permanente de lidar com metas, prazos e sobrecarga. Perguntou como é possível, na prática, desenvolver um olhar restaurativo diário, diante de um ritmo tão acelerado.
A desembargadora reconheceu o tamanho desse desafio e classificou a administração do tempo como um dos problemas mais críticos no ambiente do Judiciário. Mencionou que assessores e servidores frequentemente são pressionados como “máquinas de produção”, especialmente em gabinetes, e que a chegada da inteligência artificial tem ampliado o risco de desumanização das relações de trabalho. Destacou que a liderança restaurativa é, justamente, a que rompe esse ciclo ao reconhecer habilidades individuais, distribuir tarefas com equidade e desenvolver ambientes saudáveis. Para isso, líderes precisam investir tempo em ouvir, observar e compreender as singularidades de cada membro da equipe, sendo essa a única forma de evitar adoecimento, frustração e baixa produtividade.
O debate se ampliou com a reflexão do desembargador Ricardo Almeida, que enfatizou o papel do altruísmo na Justiça Restaurativa. Para ele, em meio às pressões diárias, é comum que as pessoas se afastem do que realmente importa: a oportunidade de contribuir com a vida do outro. Destacou que quem se doa também se fortalece e propôs uma metáfora inspiradora, em que cada pessoa pode ser “sol”, oferecendo luz ao ambiente, ou “lua”, refletindo a luz que recebe. Ambas as posições são legítimas e essenciais para o fortalecimento da rede restaurativa, sobretudo na identificação e incentivo de novas lideranças.
A participação final veio do presidente da Associação Mato-grossense dos Pais de Alunos das Escolas Públicas e Particulares (Assomapa), André Martins, que trouxe um relato contundente sobre a escalada de violência nas escolas e a dificuldade de engajar as famílias em processos dialógicos. Ao mencionar casos graves envolvendo bullying, ameaças e agressões, refletiu que muitos desses episódios poderiam ter sido prevenidos se houvesse espaços estruturados de diálogo, envolvendo pais, alunos e professores. Reforçou que a sociedade civil está disposta a contribuir, mas precisa de apoio, formação e estratégias que ajudem a levar a proposta restaurativa às comunidades escolares.
A desembargadora acolheu a reflexão e destacou que o Tribunal de Justiça tem ampliado de forma significativa a formação de facilitadores, justamente para atender situações como as mencionadas pelo professor. Ressaltou que muitos conflitos extremos poderiam ser evitados se identificados ainda em seus estágios iniciais, e que a Justiça Restaurativa oferece, ao mesmo tempo, suporte emocional e caminhos concretos para ampliar proteção, escuta e pertencimento no ambiente escolar. Colocou-se à disposição para conhecer mais de perto a realidade das escolas mencionadas e reforçou a importância de uma atuação conjunta entre Judiciário, comunidade e instituições de ensino.
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Autor: Naiara Martins
Fotografo: Josi Dias
Departamento: Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur
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